mas ah

Ele tinha a péssima mania de aparecer quando eu menos esperava. Costumava encontrá-lo nos dias em que não tinha lavado o cabelo ou que havia passado a madrugada terminando alguma reportagem. Comecei a aprender e sempre acabava adivinhando os dias que iria vê-lo pelos corredores. Nasceu uma espinha na minha testa. É, hoje vou trombar com ele. Corria ao banheiro tentando disfarçar o meu desespero mas era em vão. Não era preciso muito esforço para notar que minhas pernas bambeavam ao vê-lo e que sempre ao passar por ele eu chamava algum palavrão. Puxava a blusa, arrumava o decote, retocava o batom e lá ia eu atrás de confusão. 

Lá estava ele no meio de seus amigos, sorrindo para todas as garotas que passavam. Elas também estavam assim, elas também sorriam nervoso ao receber um abraço dele. Eu não estava sozinha nesta, pelo contrário, estava junto a um exército de companheiras. Todas nós compartilhávamos do mesmo mal. 

Qualquer um que o encontrasse por aqueles corredores poderia notar de longe que seu sorriso escondia as piores intenções. Ele nem era tão bonito assim, o que conquistava era toda a confiança que suas mãos passavam através de um toque. Ele não era tão legal, o que conquistava era como ele conseguia despir uma mulher apenas com o olhar. Ele não beijava tão bem assim, o que provocava era o ar misterioso que possuía. Ele não era ninguém, ninguém que realmente importasse. Ele não sabia conversar, detestava artes e quase nunca estava sóbrio. Nunca entendi o que via nele, não passava de um mais um babaca, iguais aos muitos com quem já me envolvi.

Acordei atrasada, engoli um café quente e corri para chegar a tempo. Senti que estava sendo observada. Olhei pelo reflexo da janela e tudo que enxerguei foi meu cabelo oleoso, espinhas e a maquiagem do dia anterior. Era dia de encontrá-lo.

Lá estava ele no meio de seus amigos, sorrindo para todas as garotas que passavam e esperando que eu realizasse o meu ritual. Entretanto, desta vez eu não disparei para o banheiro na busca de um aspecto apresentável, não fui retocar o batom e nem disfarçar as espinhas. Simplesmente fui, coloquei meu mais bonito sorriso no rosto e fui. Nada aconteceu, meu corpo não teve nenhuma reação. Nada de pernas trêmulas ou coração disparado. Olhei para trás. É, ele nem é tão bonito mesmo. Nunca foi o que eu quis e não vale a gastrite que me causou.

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